26 de Julho Dia dos Avós



Abaixo os avós! e já!

Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque são o melhor piquete de greve contra a sopa. Frases como: “Vá lá, deixa que o menino não coma a sopa!… Só hoje…” – contrariando o ar zangado que tinham, noutros tempos, como pais - são bem a prova que eles acreditam que as crianças só por motivos ponderosos é que se impedem de saborear os caldos e os cremes… de que tanto gostam. E atestam que há um conluio entre os avós e os netos que, quando uns fazem caretas e capricham nas “fitas”, os outros justificam que, embora as crianças compreendam que “a sopa faz bem…” elas reagem assim – contra a sua vontade!… – porque há dias em que o stress das aulas casa melhor com a gelatina ou com a mousse de chocolate…
Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque, por mais que repitam que as crianças devem comer de tudo, sempre que as têm ao seu cuidado perdem horas a fazer empadões e coisas caprichosas parecidas com essa. Quando as crianças almoçam com eles, o peixe parece ter feito greve, na lota. Por mais apetitoso que seja o jantar, se for preciso, as crianças acabam a comer ovos mexidos ou salsichas. E, à sobremesa, entre o pão de ló e a torta de maçã, de forma serena e “desinteressada”, acabam a recomendar aos pais – unicamente porque as crianças estão muito cansadas, “coitadinhas” – que o melhor seria que elas ficassem a dormir em casa dos avós. “Só nesta noite!…”
Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque são uns despesistas! Se as crianças querem um ovo da Kinder vão, quase a correr, e compram. Quando as crianças param junto a um macaco que não pára de dizer “habla comigo!!”, num impulso, tiram mais uma bola, de plástico, mesmo que a surpresa, que sai lá de dentro, ganhe, aos olhos das crianças, uns “longuíssimos” 20 segundos de glamour… E quando as crianças, ao saírem da escola, dizem: “tenho fome!” essa é a senha para que, mesmo que os netos tenham acabado de lanchar, os avós sejam levados a concluir que só o Bolycau, delicadamente, as irá conseguir aconchegar. Se as crianças, por vezes, chegam aos pais com manhas e com manias a culpa é dos avós. Afinal, quem é que, se for preciso, faz as refeições com a televisão a fazer de especiaria? Ou vai para a janela enquanto que, no vai-vem de mais uma colher de sopa, repete e repete e repete: “Aqui vai uma barquinha carregadinha de…”?
Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque têm toneladas de paciência e quase nunca se esganiçam quando ralham aos seus netos. Porque lhes permitem que, não só vejam os desenhos animados (quase sempre) na sua companhia como – muito pior! – Deixam que eles coloquem a cabeça no seu colo e fiquem assim, horas a fio. E sempre que as crianças trazem, da escola, trabalhos para casa – em vez do ar implacável que punham, como pais – aveludam de tal forma a ajuda que lhes dão que – Oh?!!! É magia! – Sempre que os netos os fazem ao pé de si tudo se torna rápido, fácil e sem um erro, que seja…
Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque as adormecem e lhes contam histórias. Porque dormem com elas as vezes que forem precisas. E as acordam, cheios de doçura, sem o toque a despertar de todos os dias (através do “São horas!”, com que os pais lhes conseguem estragar a paciência antes, ainda, de as acordarem). Como ainda lhes levam leite, cereais e “pãozinho” à cama, enquanto passam com a mão nos caracóis dos netos e, indiferentes à concorrência desleal que fazem aos pais, contam as mesmas histórias de todos os dias.
Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque acarinham as asneiras, fazem de força de bloqueio às regras dos pais e, sem que abram a boca, lhes sussurram, com meia dúzia de gestos: “Filho, eu encolhi os castigos!”. E porque fazem de governo-sombra, sempre que os pais estão num dia mau e, à boleia de mais um “a partir de hoje!…”, tentam pôr regras onde, antes, havia, sobretudo, uma democracia feita de “algodão doce”.
Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque sorriem, sempre que as vão buscar à escola. E sorriem, quando elas, com o embaraço dum batoteiro, dizem que não têm trabalhos de casa. E sorriem quando repetem lengalengas. E sorriem quando contam histórias, e quando fazem truques e magias. E sorriem quando elas estão com os nervos em franja. Sorriem, sorriem tanto, que até irrita. Aliás, se as crianças fazem birras, depois de um fim-de-semana com os avós, não é tanto para perceberem quem manda mais, quando os pais e os avós estão uns ao pé dos outros. É que, sempre que os avós afiançam que as crianças se portaram de forma exemplar, os pais perdem o sorriso e ficam com tamanho ar de contrafação que, por momentos, elas chegam a temer que o tempo de fadas-madrinha esteja a chegar ao fim e que, ao voltarem a casa, só sobem a Cruela e o Capitão Gancho…
Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque se vingam do tempo que não tiveram, enquanto pais, e parecem estar, agora, eternamente disponíveis. Porque permitem aos netos aquilo que nunca permitiram aos filhos. Porque perderam em austeridade tudo aquilo que ganharam em bondade. Porque tocam e porque abraçam os netos dez vezes mais (ou dez vez melhor) se compararmos os seus mimos para com os filhos. Porque amam de forma tão generosa, tão transparente e tão bonita que fazem com que os pais se enterneçam antes, ainda, de se indignarem, como filhos. E porque são, muitas vezes, mais sensatos e mais sábios que os próprios pais.
Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque as tratam por “minha querida” ou por “meu amor” e esse tom açucarado torna-se um vício. E tornam-nas raras, quando elas são, simplesmente… netas, é claro. E fazem-nas sentir o melhor do mundo para alguém – duma forma tão especial e tão preciosa – que, num dia destes, sempre que estiverem com os avós, as crianças ainda acreditam que é Natal.
Por tudo isto, os avós são perigosos para os pais. Porque os obrigam a ser mais amorosos, mais justos e mais atentos. E a ser pacientes e a sorrir. E os intimam a escutar com o coração. E a ser firmes, sábios mas serenos. E a ser bondosos, sempre, claro. Por tudo isto, os avós são uma ameaça para os pais. Sendo assim, pais de todo o mundo, uni-vos. E gritai: “Abaixo os avós. E já!”

Eduardo Sá, Psicólogo
Pais & Filhos (www.paisefilhos.pt)
Editado em: 27 Fevereiro 2013
 

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